Dia Mundial das Comunicações Sociais: existe comunicação sem humanidade?

Igreja alerta para os impactos dos algoritmos e da inteligência artificial sobre o pensamento crítico, as relações humanas e a dignidade da pessoa.

____________________________________________________

Neste mês, em que a Igreja celebrou o Dia Mundial das Comunicações Sociais, jornalistas e radialistas de uma conhecida emissora de rádio da cidade de São Paulo se mobilizavam. No dia seguinte, as transmissões seriam interrompidas, e o veículo deixaria de existir.

Em meio à comoção de ouvintes e profissionais que trabalhavam na emissora, manifestações de protesto contra o fim da rádio deram origem à frase: “Não é algoritmo, é Eldorado”. Uma dessas profissionais, a radialista e apresentadora Roberta Martinelli, explicou que as músicas tocadas na programação eram resultado de uma curadoria construída em conjunto com os ouvintes.

“São as pessoas, são as vivências, são as histórias conectadas. Tudo isso é um modo de pensar a curadoria, relacionada com afetos, com amores, com histórias, com encontros, com pesquisas e descobertas. E tudo isso quem faz é a gente.” — Roberta Martinelli

A curadoria é, antes de tudo, um trabalho de pesquisa. É como ir a um festival de música em busca de um artista diferenciado. Em certa medida, é isso que os algoritmos fazem quando um usuário navega pela internet. A diferença é que, neste caso, são os algoritmos que escolhem o artista.

O efeito colateral da chamada “algoritmização” diz respeito à manipulação do comportamento humano e à perda de autonomia. Mas, para além desse aspecto, o advento da inteligência artificial impõe novos desafios. Com essa ferramenta, já é possível criar rostos e vozes artificiais, bem como compor uma canção capaz de ser tocada em uma rádio.

Multiplicam-se as discussões sobre as transformações trazidas por essa tecnologia, entre elas a automação de tarefas intelectuais, o desaparecimento de postos de trabalho, o impacto nas relações humanas e a concentração de poder. Mas onde ficam os valores genuinamente humanos diante de um processo que substitui a força, a sensibilidade e a criatividade humanas?

Preservar rostos e vozes

Não há uma resposta única. Para a Igreja, estamos diante de um desafio antropológico. Foi o que afirmou Papa Leão XIV em mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais. A antropologia observa justamente como diferentes culturas compreendem a sobrevivência e o valor da vida humana.

Para o pontífice, os seres humanos devem preservar-se, a começar pela decisão de não renunciar ao próprio pensamento. Nesse sentido, a inteligência humana não pode permanecer aprisionada em bolhas das redes sociais que minam a capacidade de escuta e o pensamento crítico.

“Tudo isto pode enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica.” — Papa Leão XIV

Se os algoritmos reduzem a percepção e o entendimento da realidade objetiva, a inteligência artificial possui o poder de enfraquecer o próprio esforço mental. A mensagem afirma que, ao automatizar diversas tarefas, o ser humano passa a negligenciar os talentos recebidos de Deus, impedindo-se de crescer como pessoa.

Segundo o Papa, quando mal empregadas, essas tecnologias afetam a nossa capacidade de criar conexões genuinamente humanas. Esse fenômeno se manifesta de forma ainda mais acentuada no mundo corporativo. Em recente declaração, o CEO de um banco do Reino Unido causou polêmica ao afirmar, em referência à inteligência artificial, que a empresa estaria trocando “capital humano de menor valor por tecnologia”.

Caminhos possíveis

Existem três pilares que, segundo Leão XIV, devem orientar o uso das inovações tecnológicas sem impedir sua implementação: responsabilidade, cooperação e educação. Os dois primeiros dizem respeito às ações necessárias por parte de plataformas, desenvolvedores e legisladores.

Entre essas medidas estão estratégias empresariais que não visem apenas à maximização dos lucros, a transparência no desenvolvimento de algoritmos e modelos de inteligência artificial e uma regulamentação adequada voltada à proteção do trabalho de jornalistas e criadores de conteúdo.

No que diz respeito à educação, o pontífice reitera a necessidade de uma participação ativa dos católicos na literacia digital dos jovens. Isso significa orientá-los para um uso consciente das tecnologias e da internet, com o objetivo de preservar o pensamento crítico e a liberdade de espírito.

A vida, segundo Leão XIV, manifesta-se na comunicação com nossos irmãos, pois Deus nos quer como interlocutores. Por essa razão, toda inovação tecnológica deve ser orientada para que o “rosto e a voz voltem a dizer a pessoa”, e não as máquinas.

8º Muticom destaca vozes e rostos humanos

No último dia 17 de maio, a Igreja celebrou o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Na véspera (16), mais de 150 comunicadores da Diocese de Guarulhos, da Arquidiocese de São Paulo e da Diocese de Mogi das Cruzes participaram do 8º Muticom Diocesano de Guarulhos. Com o tema “Preservar vozes e rostos humanos”, o encontro foi realizado no Centro de Convenções Villa Santa Mônica. Pela manhã, os participantes acompanharam um retiro espiritual conduzido pela irmã Viviane, da Congregação das Irmãs Paulinas. À tarde, foram promovidas oficinas sobre espiritualidade, liderança, articulação e produção. O CEO da Dominus Evangelização, Jean Ricardo, foi um dos palestrantes e ministrou a formação “Planejamento de Comunicação”. Com foco na profissionalização da evangelização, Ricardo destacou que a formação é um importante instrumento de aproximação com pessoas afastadas da Igreja. “Eu acredito que a Pascom tem esse papel, essa missão de evangelizar”, afirmou. A Pascom da Paróquia São José também esteve presente no evento e participou das oficinas. O coordenador de comunicação, Guilherme Andrade, ressaltou a relevância do tema deste ano, especialmente diante da necessidade de refletir sobre a preservação de rostos e vozes humanas em meio ao avanço tecnológico. Embora a tecnologia seja uma importante aliada no trabalho de comunicação, ele pontuou que as ferramentas digitais não podem substituir a presença humana nem a comunhão entre os irmãos. “Jesus não é um conteúdo; Ele é presença viva”, concluiu.

Descrição da imagem

Compartilhe

×